Rock Press: The Best Of: Mata-borrão
Matéria publicada pela Rock Press no ano 2000, e transcrita posteriormente pelo Slidet, onde os integrantes do Blur falam sobre alguns de seus singles. Divirtam-se.
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THE BEST OF: mata-borrão
por Marco Antonio Bart
E parece que foi ontem: não havia grunge nem techno, as boates mudernas tocavam rock indie e todos nós dançávamos ao som de THERE’S NO OTHER WAY, o sucesso que catapultou um certo grupinho londrino de nome curto para o sucesso. Como era? Blergh? Blurgh? Ah, sim, Blur.
Mas já vão dez anos, amigo, e o Blur continuou pelaí – de simpáticos caronistas da onda indie dance (Stone Roses, Happy Mondays, Primal Scream…), a co-fundadores (e definidores) do britpop, os Beatles bonzinhos para os malvados do Oasis, a banda que fez com que ser inglês estivesse na moda de novo, o grupo do “u-hu!” mais famoso dos anos 90. Pois bem, agora Damon Albarn (voz/teclados), Graham Coxon (guitarras/eventuais vocais), Alex James (baixo) e Dave Roundtree (bateria) tenta resumir sua carreira de 11 anos nas 18 faixas de BLUR: THE BEST OF (EMI).
A coletânea comprime o trabalho de seis LPs e 23 singles em 17 “lados A”, que incluem seus principais hits, em ordem não-cronológica. Também há uma faixa inédita, MUSIC IS MY RADAR. O álbum pode não ser exatamente o creme do creme da banda, mas cumpre perfeitamente seu papel: registrar as variadas fases que o Blur teve, e comprovar seu papel inegável na reabilitação do pop britânico na década que se encerra. Por outro lado, há um fator extra-banda envolvido: a EMI inglesa fez uma extensa pesquisa entre os fãs do grupo para chegar à lista de faixas do álbum. “A pesquisa de mercado foi absolutamente fascinante”, observou Alex James. “Foi realmente brutal. Mas eles queriam saber qual era a idéia das pessoas sobre como um disco perfeito do Blur seria. E a coletânea é um resultado direto disso”.
Agora, por que não deixar os rapazes falarem por si mesmos? Em uma entrevista cedida pela gravadora (e conduzida pelo jornalista Stuart Maconie, biógrafo oficial do grupo), o Blur lembra um pouco de seu passado, revela alguns segredos de suas canções e dá pistas sobre o futuro.
THERE’S NO OTHER WAY (1990)
Alex James: Foi a primeira vez em que conseguimos que tudo se encaixasse no lugar certo. Foi a primeira música na qual trabalhamos com o produtor Stephen Street, nuna hora em que nossa carreira poderia ter ido ralo abaixo… e aí Stephen apareceu com aquela batidinha funkeada…
Graham Coxon: O sucesso dessa música nos fez pensar que tínhamos de fazer musiquinhas dançantes para sempre.
Damon Albarn: Eu me senti bastante eufórico quando gravamos essa. Tínhamos algo em nossas mãos que poderia nos levar até o topo.
GIRLS AND BOYS (1993)
Graham: Foi quando desenvolvemos finalmente o yin e yang que é Coxon & James, a oposição que eu e Alex temos em termos de gosto musical – não é nada pessoal. Acho que essa oposição é uma das forças do Blur. Nessa música Alex ficava tocando um baixo funk e eu… fazia o contrário. Era como se ele estivesse tocando uma música do Duran Duran, e eu, tocando uma música do Gang of Four. E acabou funcionando, na verdade foi a primeira vez em que se ouviu algo parecido. Sabíamos que tinha ficado interessante.
Dave Rowntree: Pra mim, essa música foi como uma espécie de bônus… eu acabei só tocando os pratos, por causa de toda a bateria eletrônica que há nela.
PARKLIFE (1994)
Graham: Foi quando começamos a usar convidados, não foi? (ele se refere o Phil Daniels, ator que faz o vocal principal, falado, na música).
Alex: Damon fazia a voz originalmente, e queríamos usar Phil Daniels para narrar uma história em cima de THE DEBT COLLECTOR, que acabou ficando apenas como um instrumental esquisito… mas aí, quando nos demos conta, percebemos que ele seria perfeito para PARKLIFE. É uma música muito estranha, né? Damon chegou com ela toda pronta, e instantaneamente ela soou como um hit para mim.
Damon: Nós unimos futebol com música pop, de uma maneira bem direta, e acho que foi aí que o britpop provavelmente começou. A música PARKLIFE deu início a tudo, embora muita gente tenha reclamado a “paternidade” do movimento. Nosso disco anterior, MODERN LIFE IS RUBBISH, vendeu só umas 15 mil cópias e PARKLIFE vendeu 1,7 milhão ou mais, sei lá… Aquilo foi um salto para todas as bandas que vieram depois, o público foi ficando cada vez maior, pessoas que nunca comprariam um disco de rock começaram a comprar. Depois de PARKLIFE, passou a ser “legal” que uma banda indie fizesse sucesso.
TO THE END (1994)
Dave: Na fase em que gravamos essa, queríamos deixar que cada música “procurasse” seu próprio arranjo. Tentamos – e conseguimos – deixar que essa música ficasse intensamente emocional e marcante.
Graham: Nesta faixa, eu me limito a tocar alguns acordes esparsos, muito suavemente. As canções de Damon naquela época eram tão fortes e eloqüentes que eu não quis entupí-las com montes de guitarras.
COUNTRY HOUSE (1995)
Graham: Essa música era ótima, até que pusemos toda aquela fanfarra nela – sopros e coisas assim. Era uma musiquinha legal, meio rude, até que todo aquele clima meio gaiato tomasse conta. Então, para mim, virou meio que uma música que gente imbecil gosta de ouvir. E o clipe também seguiu o mesmo caminho, então eu o odeio também.
Alex: Gosto dessa música. Tenho orgulho dela; há dez semitons de uma vez só nela. Mas, ao mesmo tempo, acho que não devíamos tê-la lançado com um single…
Damon: Acho esse comentário extraordinário! Ouvir isso de alguém que, a cada show que fazemos, enche o saco pedindo: “podemos tocar COUNTRY HOUSE, por favor?”.
Alex: Essa música ficou marcada por toda a guerra com o Oasis (COUNTRY HOUSE foi lançada no mesmo dia em que ROLL WITH IT, do Oasis, e chegou ao primeiro lugar da parada). Mas é fascinante notar que Noel Gallagher realmente vive numa casa no campo…
THE UNIVERSAL (1995)
Damon: Essa música começou como uma bossa nova, ainda nas gravações de PARKLIFE, mas simplesmente não funcionava. Foi por acaso que eu pensei no arranjo de cordas, enquanto tocava a música num teclado. Stephen Street trouxe o coro feminino, os violinos e os metais. Quando mostrei a gravação a Justine Frischmann (vocalista do Elastica e ex-esposa de Albarn), ela disse que era a pior música que eu já tinha feito!
SONG 2 (1997)
Dave: Essa saiu tão rápido…
Damon: Gravamos essa tão rapidamente que nem lembro direito como foi. Não levou mais de trinta minutos para gravar, eu nem mesmo tinha terminado a letra. Acho muito excitante trabalhar assim – quando você nem sabe direito o que está dizendo, fica mais primal.
Graham: Sempre houve pressão em cima de nós. Começamos nossa carreira como um grupo meio “intelectual”, então é sempre um alívio poder gravar coisas como SONG 2 e lançá-las em singles. É como se estivéssemos nos libertando de todo o intelectualismo, da encheção de lingüiça. Usar apenas a energia, e não o cérebro.
Alex: Todo mundo acha que músicas como SONG 2 são filhas diretas de Graham e suas guitarras. Mas outro dia estava falando com (o produtor) Stephen Street e ele revelou que, no refrão de SONG 2 não há guitarra! A barulheira é feita com dois baixos, em overdub. Só não conte isso a Graham, ou ele nunca mais vai tocá-la de novo…
TENDER (1999)
Alex: Tem uma estrutura bem tradicional, que remete a algo anterior à música pop. É mais como um hino. Na verdade é bem convencional, mas comparado com o que está na moda atualmente… é muito diferente.
Graham: É refrescante e nova, mas bem antiquada.
Damon: Hoje em dia, eu entro em pânico quando começo uma música e uso mais do que dois acordes. De vez em quando, uso uns três ou quatro. Eu costumava usar 15 acordes diferentes em cada canção, como em MODERN LIFE IS RUBBISH. Agora apenas me concentro no tipo de música que gosto de ouvir, que é muito mais simples, mas mais expressiva.
COFFEE & TV (1999)
Graham: Bem, essa tem meu selo gravado nela. Mas eu não a compus de verdade, apenas escrevi a letra. Tive que escutá-la várias vezes, até conseguir me imaginar cantando-a. Cantar essa música ao vivo é que era o problema para mim. Eu adoro cantar, mas não gosto de estragar as músicas que aprecio lançando-as como singles, pois sei que dentro de seis meses vou estar odiando-as.
Blur – THE BEST OF
Assim como os Kinks – uma das bandas cruciais do rock britânico dos anos 60, e também uma das maiores influências do Blur – Damon Albarn & cia. podem ser considerados mais um grupo de singles do que de álbuns. Todo mundo lembra da canção YOU REALLY GOT ME, mas quem lembra do álbum THE KINKS? Isso também acontece com o Blur, que, apesar de ter ótimos LPs em sua discografia, deve entrar mesmo para a história por conta de seus hit-singles. Nada de errado: afinal, o quarteto londrino é um arquetípico grupo pop, sinônimo de compactos iluminados. Então uma boa forma de se curtir a banda é através dessa equilibrada coletânea, que enxuga as possíveis indulgências dos discos e deixa só a polpa.
Podemos perceber então a esperta versatilidade do Blur, que ao mesmo tempo em que flerta com vanguardas e radicalismos, nunca perde de vista a tradição do britpop – que vem de muito antes dos anos 90 e engloba os citados Kinks, o Who, Roxy Music, T-Rex, Elvis Costello, XTC, Madness e The Jam. A falta de ordem cronológica no disco infelizmente impede a apreciação da trajetória completa do grupo. De indie dance fake (no primeiro hit THERE’S NO OTHER WAY, fabricada até a medula, mas ainda deliciosa) até a recente fase “desconstrutiva” – com a inédita MUSIC IS MY RADAR, que segue de onde o cru e experimental álbum 13 parou. No percurso, dá para apreciar o grupo abraçando (com ironia) a tradição pop inglesa, com FOR TOMORROW; e o tecnopop fake (de novo!) de GIRLS AND BOYS, precedendo as faixas tiradas de PARKLIFE (END OF A CENTURY, TO THE END, PARKLIFE) – que preconizavam um Blur muito mais inteligente e surpreendente do que antes. Também temos o gostinho de THE GREAT ESCAPE, o disco subestimado do grupo, em músicas como (a belíssima) THE UNIVERSAL ou (a engraçada) CHARMLESS MAN. Daí, para cair no Blur pós-britpop: mais ironia popíssima com BEETLEBUM, mais experimentalismo com ON YOUR OWN. E, claro, SONG 2; talvez a mais atípica, radical e divertida canção do grupo. As faixas de 13 (NOTHING LEFT TO RUN e TENDER) fecham o ciclo.
A somatória final é a de um grupo que representa tudo o que o britpop tem de bom (o senso de humor, as melodias apuradas, o gosto pelo ecletismo, a elegância) e algo do que tem de ruim (a derivação que quase chega ao plágio, uma certa frescura). Ou seja, imperdível – apesar dos defeitos e também por causa deles.
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Fonte: http://www.slidet.com/blur/rockpress02.htm
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