Oasis – por Will Self
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Há muito tempo tinha lido um texto em que um escritor descrevia os porquês do Oasis ser o fenômeno que é no Reino Unido, pois bem, eu encontrei este texto e resolvi compartilha-lo. Este texto foi escrito pelo escritor britânico Will Self e reproduzido na Folha do dia 20 de março de 1998.
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Após três discos de arrasar e algumas centenas de rixas, a principal banda britânica ainda é o seu próprio maior inimigo; o escritor Will Self explica o significado do Oasis dos irmãos Gallagher
por Will Self (Details)Atrás das portas indescritivelmente escorregadias do Groucho Club, primeiro lugar em entretenimento londrino e muito badalado pela mídia, uma noite de terror épico (e típico) está chegando lentamente ao fim.
O Groucho é o próprio ateliê da arrogância, um palácio de vaidade. Tenho me sentando aqui em várias ocasiões e assistido a celebridades hollywoodianas classe A lutando para serem atendidas pelos garçons. Mas, nessa ocasião, noto um furo nesse clima gélido, uma espécie de aquecimento palpável. Optando pela minha vigésima dose de álcool da noite, chego a duras penas ao bar do andar de baixo e fixo olhar num indivíduo alto e de cabelos escuros. Não estudo tanto o cara quanto a sua persona se incide sobre mim. Ondas de hostilidade emanam dele como o barulho de uma TV fora do ar. Sua cabeça balança e seus punhos estão nervosamente fechados e tensos.
Mas não é apenas seus comportamento que está excitando as coisas por aqui. Mesmo antes de a loira absurdamente bela vestida com o top de cetim chegar e colar-se junto a seu corpo, noto um fato intrigante: todas as pessoas no bar estão olhando para ele! Se o próprio Cristo andasse por ali, seria totalmente ignorado, mas esse esquisitão rouba a atenção de todos. Quando a loira o puxa em direção ao piano do canto superior do bar e derrama-se sobre ele (o piano) uma pose fortemente remanescente de Michelle Pfeiffer em SUSAN E OS BAKER BOYS, começa a clarear em mim a compreensão de quem eles são.
Ele toca languidamente uma meia dúzia de acordes, ela ensaia umas notas. Todos nós estamos transfigurados. Quem se importa com a Lady Di? Esqueçam Tony e Cherie Blair. Isto é Liam e Patsy. Este é o casal de ouro, a face verdadeiramente nacional e autêntica da fama. Ela canta, ele toca, eles estão ilhados pela nossa estima por alguns momentos… até que ela desvanece.
A primeira vez que escutei o Oasis – repetidas vezes – foi no show de rádio de meu amigo Mark Radcliffe, da BBC. Mark é transmitido de Manchester. E conhecido por pegar o que quer que seja que esteja vibrando de perversidade pop polimorfa naquela cidade. “Maay-bay, I don’t reely wanna know…”, Liam Gallagher rosnava sem parar na canção LIVE FOREVER. Eu captei o ritmo, mas não fazia muito o meu gênero. Era branco demais, guitar band demais, auto-referencial demais ao próprio rock.
Mas quando a imprensa e a babel geral começaram a admiração, descobri-me intrigado. Noel afirmava ter roubado uma loja de seu bairro aos 13 anos. A banda havia ameaçado queimar um club proeminente caso não pudessem se apresentar lá. Havia havido uma confusão a bordo de um ferry. O Oasis não arrasava os quartos de hotel, eles os fatiavam. Gabavam-se orgulhosamente de serem maiores que os Beatles – a coqueluche do pop. E havia drogas – toneladas de drogas. E havia mulheres – toneladas de mulheres.
Selvagem
Mais ou menos um mês depois de volta ao Groucho Club, jogava sinuca com uns amigos, quando notei uma fileira de buracos numa parede de gesso que se assemelhavam às impressões deixadas por armas de grosso calibre. Eram, me contaram, os resultados do primeiro desentendimento matrimonial do casal real – uma saraivada selvagem de bolas de sinuca lançadas pelo Mancunian (natural de Manchester). Tamanha era a admiração por Liam que estava fora de questão censurá-lo. Escutei dizerem que aqueles buracos deveriam ser emoldurados.Mais tarde naquela mesma noite, Liam foi encontrado cheirando uma fileira de coca na porte de uma loja da Oxford Street. Quando a polícia o libertou com um aviso, houve o protesto previsível, mas Gallagher é o tipo de borboleta que levanta a asa e a usa para esmagar.
D’YOU KNOW WHAT I MEAN?, o single lançado como aperitivo do Tão Esperado Terceiro Álbum Do Oasis, BE HERE NOW, excitou todas as minhas ambivalências. A música começa com um enorme rangido de guitarra de fundo, como o urro de uma poderosa criatura mecânica. Então tem início o queixume alto de Liam. Tudo aquilo soava alarmante como o dedilhar estridente e alegre associado com o pub rock. Mas não importa a música, há uma transcendência no Oasis. As músicas de Noel, com sua carga de solipsismo adolescente, são de alguma forma os tijolos de vidro do zeitgeist; as enormes muralhas de gritos de guitarra nas quais estão inseridas são tão fora do tempo quanto zigurats sumérios.
Antes de colocar minhas mãos em BE HERE NOW, passei duas semanas correndo para baixo e para cima pelas ruas de Londres em um carro turbinado do tamanho de um saloon equipado com som estéreo. SHAKERMAKER, CIGARETTES & ALCOHOL, LIVE FOREVER e WONDERWALL – todos os “clássicos” estavam sendo tocados obsessivamente. Às vezes, eu sentia como se o carro inteiro fosse um disco de hóquei sendo arremessado para todas as direções dentro de um rinque de reverberações de guitarra. Outras vezes, me sentia carregado por tudo aquilo, certo de que estava na presença de um gênio.
Num momento, a música me obriga a mexer, e tudo que eu quero é me embebedar com os rapazes numa tempestade de cocaína debaixo de uma chuva forte de Jack Daniel’s e Coca-Cola; no minuto seguinte estou achando o impiedoso arpejo de quatro cordas um pé no saco. Curto mais o Oasis quando estou num humor auto-indulgente – “I need to be myself/ I can’t be no one else” (“Preciso ser eu mesmo/ Não posso ser outra pessoa”) -, quando passo voando pela estrada com os pensamentos na carga lotada que a vida me deu, e em como ninguém entende.
Então os acordes de guitarra do início de uma canção simples como DON’T LOOK BACK IN ANGER capturam uma melodia de puro romantismo. Liam Gallagher, com sua data de nascimento confortavelmente enraizada nos anos 70, não é tão pós-punk como é inteiramente pós-moderno. E o Oasis é a primeira banda mundial a ter sua sensibilidade musical definida como um jardim sonoro atemporal, livre das estações de mudanças culturais e das tempestades de revolução social.
Niilismo
Embora sejam ostensivamente britpop, os irmãos Gallagher são, na verdade, parte da segunda geração de imigrantes irlandeses. Sua sensibilidade musical foi formada tanto por canções familiares em County Mayo como pelos hinos niilísticos do Sex Pistols.Muito se tem dito da afinidade da banda com tudo que é coisa beatle, mas a verdadeira psicodinâmica do Oasis se deve muito mais a seus progenitores sulistas com jeito de cafetão e aspirantes à boemia – as Majestades Satânicas originais. Como os Rolling Stones, o Oasis é um quinteto com um líder inefavelmente carismárico e sexual e prosperou na tensão psicossexual entre seu letrista/guitarrista principal e seu líder/estilo guru.
No caso do Oasis, isso é ainda mais atiçado pelo consanguinidade. Basta imaginar o que deve ser escutar seu irmãozinho cantando sobre suas experiências sexuais e sentimentais para entender por que músicas como WONDERWALL possuem tamanha ressonância emocional. Só para estender um pouco mais a psicoanálise, se existe um paralelo entre o Oasis e os Beatles, ele está nas personalidades de John Lennon e Liam Gallagher, Ambos passaram por infâncias difíceis; ambos sofreram o deslocamento concomitante do ser.
Noel Gallagher descreveu seu irmão como alguém que “vive em seu próprio mundinho” e inferiu que o efeito essencial do estrelato havia sido o de intensificar a obliquidade do relacionamento fraternal com sanidade. Não creio que se tenha necessariamente que recorrer à patologia ou a psicologismos a fim de classificar a personalidade de extremos de Liam. Mas, ao contrário de Lennon, os irmãos Gallagher nunca se deixaram ser domesticados pelas exigências do comércio e da imagem. Lennon foi levado pela ânsia de abraçar sua (inicial) caracterização de amável, desprovido de classe e de sexualidade. Os irmãos Gallagher são ligados intrinsecamente às suas origens de classe proletária. Para entender a importância deste fato, deve-se observar quão rígidas as distinções britânicas de classe ainda são.
Na Inglaterra, pode-se ascender da classe proletária à classe média em uma geração, mas não se pode chegar à cúpula. Se você possuir algum tipo de sotaque forte regional, não há como você ser considerado apropriado. Na Grã-Bretanha, o proletariado industrial, principalmente no norte, formava uma horda masculinha dedicada à adoração fervorosa do futebol. Uma das partes mais tocantes da biografia da banda, escrita por Paolo Hewitt, é quando Noel descreve como eram aquelas tardes de sábado. Os pais deixavam seus filhos lado a lado de uma enorme barreira do tamanho das arquibancadas e corriam para o bar. Os irmãos Gallagher ficavam sentados ali, irradiados pelo som e pela cor que é uma partida de futebol inglesa em plenitude. E então a cantoria começava. É esse rumor rouco de multidão de torcedores que provê o forte sentimento de hino de tantas músicas do Oasis: são feitas de propósito para serem cantadas em massa.
Outro aspecto importante da estética – ou anti-estética – Oasis vem da cultura do futebol: sua pose de “casual” fashion. Os Casuals foram a linha sucessória da estética Mod do final dos 60 e começo dos 70 que se inspirou na padronização das lojas de departamento. Oasis, com seus tênis amarfanhados, exemplifica um cruzamento bizarro entre os dançarinos movidos a anfetamina das raves e os hooligans munidos de navalhas que perturbavam as partidas de futebol inglesas nos anos 80. Isto, com uma dose saudável de putaria, drogas e mau comportamento exemplar, é o caráter pós-tudo, pós-rótulo do Oasis. Essa é a razão por que destruição de quarto de hotel e esmagamento fraternal é algo tão deliciosa e delirantemente digno de idolatria.
Tecno
Noel Gallagher tem andado com os Chemical Brothers e Goldie, a estrela selvagem britânica e o supremo mix-down. Juntos eles distorcem sons, experimentam coisas novas como amostras do que pode ser feito e extraem ritmos da mesa de som. Se o Oasis vai desenvolver uma carreira parecida com a de seus companheiros deuses, Noel vai precisar engolir alguma coisa profundamente nova e de fonte eclética. E, no momento, tecno, drum’n'bass e todo aquele tipo de dance music computadorizada é certamente o que a Inglaterra faz de melhor.Noel Gallagher parece particularmente vulnerável à acusação de que sua banda ainda não evoluiu. Na verdade, quando BE HERE NOW finalmente chegou às lojas do mundo inteiro, em agosto do ano passado, algumas dessas ansiedades se provaram justificadas. As novas músicas que escutei não fizeram muito minha cabeça. Mas também eu não estava num humor auto-indulgente. STAND BY ME repete familiares padrões de hino; em MY BIG MOUTH, Noel oferece seu próprio discurso Megeneration (geração do Eu): “I’ll have my way/ I’ll have my say” (“Eu tenho meu estilo, eu tenho meu discurso”), e por aí vai.
Em outra música tateia-se pelo tipo emocional de insight tipicamente McCartneyano. Noel dá o seguinte conselho: “Get your shit together, girl” (“Recolha suas merdas, garotas”), por sobre um fundo de doces acordes de guitarras. Essa é THE GIRL IN THE DIRTY SHIRT. O mix por sua vez é um pouco mais aventureiro: simples sons de fundo e guitarra psicoldélica acompanham a música que deu nome ao disco, como se tivéssemos mais uma vez pedido por um clichê. Não sei se BE HERE NOW é tudo isto que seus criadores esperavam. A primeira vez em que escutei o disco foi num radinho, enquanto esperava num balcão por um sanduíche antes de poder realmente dizer alguma coisa do álbum.
Eu tenho simpatia, de verdade, por esses jovens potencialmente vulneráveis. A imprensa britânica pode ser venenosa, inescrupulosa e falsa. O assédio aos Gallagher tem sido concomitante: paparazzi noite e dia, marcação total. Mas, no que diz respeito às suas imagens e às suas músicas, posso apenas ecoar as palavras de outro durão do rock britânico, Pete Townshend: “Eu realmente espero, em termos da intensa tradição roqueiro que eles representam, que eles morram antes de se tornarem velho”.
Escritor é revelação dos 90
No início da década de 90, o escritor e jornalista Will Self, 37 anos, foi aclamado como um dos mais importantes autores britânicos da nova geração recebendo elogios de nomes consagrados como Martin Amis, J.G. Ballard e Salman Rushdie. Dos quatro livros que o revelaram, COCK & BULL – HISTÓRIAS DE PHADAS E PHODAS tornou-se o mais famoso. Na primeira parte, uma mulher descobre um pênis nascendo de sua vagina. Na segunda, um homem encontra uma “fenda estranha” atrás do joelho.
Alguns elementos sempre presentes em seus textos, que beira o fantástico, são perversões sexuais e as drogas. Self esteve no Brasil em 94 para o lançamento nacional de COCK & BULL (Geração Editorial), na 13 Bienal do Livro de São Paulo. O escritor também foi colunista do jornal britânico The Observer, no qual escrevia críticas pouco ortodoxas sobre televisão e restaurantes. Foi demitido após uma denúncia de que teria usado heroína no banheiro do avião de campanha do ex-primeiro ministro britânico John Major, em 96.
Fonte: http://www.slidet.com/oasis/folha16.htm
Livro com o texto em inglês: http://www.slidet.com/oasis/folha16.htm
Livro com o texto em inglês:
Vinicius says on: 27 July 2009 at 01:48
Post atualizado.
Eu acho que as letras e musicalidade continuam boas, a segunda até evoluiu.





lol, vou começar a usar uma “dose saudável de putaria, drogas e mau comportamento exemplar” e ver se subo na vida também hehehe..
e é isso mesmo.. o blábláblá todo desse cara mostrou porque o oasis, no início de sua carreira, fazia letras tão profundas e que caíram no gosto da população..
e o jeitão do Liam é um dos fatores que me mantém fã do oasis por esses já 11 anos e meio
cheers, vida longa aos gallagher!